sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Carona Santa

Atrasada como sempre, saí de casa correndo, em direção ao carro que estava na frente de casa.

Nesse exato momento cruza o meu caminho uma senhora. Trajando as roupas típicas das fiéis (uma saia, uma imagem de Nossa Senhora estampada na blusa, e uma sombrinha) ela perguntou enquanto eu abria a porta do carro:
- Vai para onde, minha filha?
- Estudar. – respondi preocupada com o ônibus do IFRR que iria partir sem mim.
A mulher ficou parada, olhando pra mim... arrisquei:
- Quer uma carona, senhora?
-Quero sim. Pode me deixar ali no terminal?

Quando a Dona Beata estava entrando no carro, imaginei que ela tivesse andado muito naquele Sol exigente. É a segunda pessoa essa semana que me vê saindo de casa e pede carona só para avançar algumas quadras (que nem aquele jogo de tabuleiro).
- A senhora vem de onde?- Perguntei curiosa
- Eu venho ali do Rock!
Quê?! Imagine minha cara de espanto ao descobrir que a senhorinha, além de religiosa, era também roqueira!
Só quando percebi que eram 2 da tarde, e provavelmente tinha nenhum Rock acontecendo por ali, caiu a minha ficha: meu mais recente vizinho é o bispo da cidade, o Dom Roque Paloschi, que mora na Prelazia (casarão antes abandonado onde eu costumava caçar calangos).

Mas é um vizinho muito do seu recluso esse bispo, pois nunca o vejo!
- Ah, o bispo mora aí não é?
- Ué, você não vai à missa, minha filha?
- Não.
- Pois saiba que isso é pecado mortal!
- É? - eu disse surpresa
- Sim. Pior do que roubar e matar!
- Sério?
- Sério. Pior que latrocínio e assassinato!
Me senti a escória da humanidade depois dessa revelação. E ela prosseguiu:
- Sua mãe vai à missa?
- Não.
- Pior ainda. Pois quando o filho não pode, a mãe tem que ir à missa rezar pelo filho. Pra ter uma vida plena tem que fazer tudo isso, se confessar com o padre...
- Afe, tô lascada então!
Ela riu (pelo menos isso).

Depois dela falar toda a programação das igrejas da cidade, parei o carro no terminal. E quando ela desceu do carro ainda perguntou:
- Mas pelo menos você fez batismo, primeira comunhão..?
- Fiz sim. Isso eu fiz! – enchi a boca pra falar
- Menos mal. – disse ela antes de ir embora.

A verdade é que eu menti para a mulher. Nunca fui batizada e muito menos tenho primeira comunhão. Mas se eu já ia para o inferno mesmo, mentir para a crente era bobagem diante da minha vida tomada pelo pecado.


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Falsos Surfistas


Muito... difícil fazer uma letra
Até pra uma canção clichê
Que rima tudo com “apê”
Que rima paixão e »

» coração
Canção de fundo de ônibus
De apresentação de slides
De carro de tele mensagem
Ou de campanha eleitoral!

Canção de falsos surfistas na praia
Cantando para a lua cheia
Rimando areia e sereia
E tudo vira um sucesso!


Cora Rufino
Só sei que virou música
E me fizeram recitá-la essa semana

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

"Yo soy Paraguayo!"



Mamãe voltou do Paraguai anteontem.
Disk tava tão frio lá, que ela ia assistir às aulas assim:


Legal agora tenho um esquimó para chamar de meu!


Falando nisso, agora uma piada para homenagear a Gabriely

O cara chega para o outro e diz:
- Yo soy paraguayo! Vim aqui para matar-te!
- Para quê?
- Paraguayo!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ele só queria ler

Começaram as aulas de Edificações. Como é o primeiro módulo, ninguém se conhece ainda.

No terceiro dia de aula, adentrou a sala uma coordenadora com uma mulher que gesticulava bastante.

Até entendermos que os gestos eram LIBRAS demorou um pouco, porque ainda não tínhamos nos dado conta de que havia um deficiente auditivo entre a gente.


O surdo dispensou a intérprete. Disse que não seria necessário, pois ele sabia ler lábios. A mulher gesticuladora nunca mais apareceu.


Só que é seguinte, temos quatro professores:

O primeiro não fala muito bem. Tem problemas de dicção assumidos que dificultam a compreensão até de quem tem a audição perfeita.

O segundo fala sorrindo sem mexer os lábios. Mas pelo menos fala alto (fator que é inútil para o nosso colega deficiente).

O terceiro só apresenta a aula no DataShow e, para isso, apaga todas as luzes deixando a sala completamente escura, possibilitando apenas ver o slide e ouvir o som de sua voz (como ninguém consegue escrever, de tão escuro que fica, que dirá ler lábios).



Na última aula, de Desenho Técnico, sentei do lado do deficiente auditivo. Como a professora não tem problemas de dicção e dá as aulas com as luzes acesas, imaginei que seria bom para o meu colega ao lado.

Porém, lá na metade da aula, quando tava todo mundo concentrado nos seus desenhos, o colega me cutuca e pergunta:

- O que é pra fazer?

Nessa hora eu me dou conta de que a gente passa a aula inteira de cabeça baixa, olhando para o papel e seguindo as instruções faladas da professora. Ou seja, ou você lê os lábios dela ou você olha para o papel .


Enfim... foi ele quem dispensou a intérprete.


terça-feira, 28 de julho de 2009

Arrumar é o começo


Aí acabou o semestre. E eu filosofei tanto sobre meus gostos…
Nunca foi tão chato desenhar!
Minha nossa! Só de pensar em acordar às quintas, pegar a pasta de papéis A3, os lápis, a borracha e ir para a faculdade desenhar à mão livre já me dava uma preguiça.
Diziam que eu e o Sergino éramos os melhores da sala e tal. E dos que estavam lá, nós dois fazíamos nossos trabalhos sem muita reclamação ou preocupação com os erros.
Mas o excesso de confiança tem dessas coisas: na última semana do semestre lá estávamos nós. Eu e Sergino de recuperação justo na matéria de desenho livre.
Como?
É a velha história do “Ninguém vai me dizer o que fazer! Eu desenho como eu quiser!”
Mas grazadeus deu tudo certo no final.

E as maquetes?
Nunca. Mas nunca mesmo gostei de trabalhos manuais ou qualquer tipo de artesanato.
Nem quando fazer pulseira de miçangas era moda entre as garotas da minha idade.
Nunca quis aprender bordado ou crochê porque não tinha saco para as minúcias dos detalhes. Isso tudo precisava de concentração, organização e paciência, coisas que nunca tive.
Mas em relação às maquetes, consegui tirar boas notas nos trabalhos em grupo. E com a consciência tranqüila eu afirmo que fiz o melhor que pude junto aos meus colegas. Mas na maldita maquete individual...Que negação. Passei a madrugada fazendo aquele cômodo em miniatura. A professora reclamou que a minha maquete não tinha Highlight! Mas eu tinha tido um Insight e pensei em começar um Fight que durasse até a Night. Que critério de avaliação mais estúpido: highlight. Aprendi até a fazer a tal da decoupage para ser o papel de parede da suíte do casal. Ficou um lixo, óbvio...
Depois de receber a minha nota e saber que tinha passado, saí da sala com o quartinho de casal na escala 1:20 nos braços, como se fosse uma criança de colo, e a joguei no lixo do corredor. Não amava aquele filho deficiente (que crueldade a minha). Mas enjeitei mesmo a criança. Que se dane ela. Eu passei.

Esse foi o semestre em que tirei 10 na prova de Geometria Descritiva! O primeiro 10 que tiro na minha vida inteira, em uma matéria das exatas.

Dez em Geometria e prova final em desenho?
Nem eu me reconheço mais.

Em casa, vendo aquela ruma de papéis, colas, tesouras e réguas por todo o chão da casa, imaginei que parecia, forçando a imaginação, a bagunça de um pós-festa, onde depois da farra vem o sofrimento de arrumar a casa com ressaca. Limpar a sujeira alheia, jogar fora os cacos do vaso que aquele amigo sem noção quebrou e as baganas que seus amigos fumantes deixaram em sua casa sem cinzeiro.
Mas não. Não era a típica bagunça que sucede a festa. Era a arrumação de mais um período letivo findado, com aprovações em todas as matérias o que, afinal, era o sofrimento que precedia a bagunça e, arrumá-la era a própria festa.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Conversa Universitária

Cheguei à faculdade e vi aquela roda de gente discutindo com afinco sobre algum assunto. Um deles gritou:
- Mas foi muita sacanagem o que fizeram com ela!
Eu, curiosa, já entrei na muvuca perguntando:
- Quem foi sacaneado?
Responderam:
- A Babi!
- Quem é Babi? - Eu perguntei, achando que era alguém da Universidade.
- Você não assiste a Fazenda?
Então eu lembrei. A Fazenda é um reality show da Record, onde a produção pegou uma penca de “artistas” egocêntricos e exibicionistas, tiraram do ostracismo e jogaram em uma fazenda cenográfica, creio, para que eles tenham sua chance de aparecer na mídia de novo chutando o pau da barraca.
Mas como eu não assisto, não consegui acompanhar o rumo da prosa. Percebendo que todos tinham alguma participação na conversa menos eu, fui me retirando de fininho, triste, solitária e constatando:
- Meu Deus, como sou alienada!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Saying No!

No começo do Jogo Brasil x África do Sul o capitão Lúcio leu um discurso anti-racismo. Em seguida o capitão sul africano fez o mesmo discurso na língua inglesa. Antes de o jogo começar, ainda mostraram na TV vários cartazes com a frase “Say NO to racism”. Deixaram bem claro que esse era o lema da Copa das Confederações 2009.
Mesmo assim a gente, telespectador, presencia diálogos como:
- Minha nossa! Esse gramado está em péssimas condições!
- Ah, mas você tem que entender que eles são pobres, não têm condições de ajeitar o gramado!
Ou então, durante a aparição do jogador Booth:
- Olha! Um branco na seleção africana!
No fim o que interessa mesmo é a partida.