domingo, 20 de junho de 2010

Momento Lembrança – Cenas Oblíquas


Eu e os curumins da rua gostávamos de dar cotoco uns para os outros.
Uma das mães, vendo essa arrumação, foi se queixar para a irmãzinha de um dos pirralhos:
- Diga para a sua mãe, que o Deco está fazendo gestos obscenos para o meu filho.
Quando a mãe da menina chegou, ela correu:
- Mãe, a vizinha disse que o Deco está fazendo cenas oblíquas!



Criança é um bicho escroto.
Já conhecíamos a palavra “oblíqua”, mas não sabíamos o que era. Da mesma forma já conhecíamos a obscenidade, mas não sabíamos a palavra.

Quando somos criança, essa coisa de enriquecer o vocabulário vai muito da dedução.
A não ser que a tenhamos uma pessoa adulta por perto para perguntar:
- Mãe, o que é prostituta?

 ***

A primeira lembrança que eu tenho de metáfora é do dia em que eu estava assistindo a uma novela. A mocinha deitava-se no colo da mãe e desatava a chorar:
- Tira ele da minha cabeça, mãe! Tira ele da minha cabeça!
E eu imaginava quem poderia estar dentro daquele crânio miúdo...

As cenas que se formavam na minha imaginação eram todas completamente oblíquas.

domingo, 25 de abril de 2010

Bertinha

Bertinha! Bertinha! Bertinha!
O que foi que aconteceu?
Ave Maria, Bertinha
Mil Fragmentos seus

Saia de cima do muro!
O que você quer aí?
Oito olhos aboticados
Vão fazer você cair

Todos são meio idiotas
Pai, mãe e os irmãos
Corre pra longe, Bertinha
Só você tem salvação

Bertinha! Bertinha! Bertinha!
O que foi que aconteceu?
Vixe Maria, menina
Mil pedacinhos seus

Cora Rufino
21/04/10

***
Inspirado no conto A galinha degolada, do uruguaio Horacio Quiroga.
Pensando ainda se uso Bertinha ou Bertita.

Transformamos o poema num acalanto e o cantamos na nossa peça "Oito Olhos"

terça-feira, 6 de abril de 2010

O oposto do dia


A luz que me traz a idéia
Não é a mesma que lhe alumia
Eu penso melhor à noite
Você raciocina de dia

Não ordene que eu vá dormir
Pois não vou obedecer

Se você me pedir para subir
Logo, logo vou descer

Porque é à noite que eu acordo
Acendo as luzes, mas dentro de mim
Aprecio meu dia ao contrário
Perdoe-me por ser assim

Cora Rufino
Porque eu tinha que postar de madrugada

terça-feira, 9 de março de 2010

Ditado Censurado

E num momento em que falávamos mal de alguém, proferiu-se.
- É, ele peidou na farofa.
As puritanas abismadas logo repreenderam:
- Que feio! Fala "soprou na farofa", é menos forte!

Daí eu imagino: que poder elas achavam que tinham de modificar, ou melhor, adaptar uma expressão popular?
Seria como dizer:
- Passarinho que come pedra, sabe o orifício anal que tem.
ou
- Mais feliz que pinto no escremento.
ou
- Quem tem abertura exterior do tubo digestivo, tem medo.
ou
- Ela é pobre e metida, dessas que comem ovo e querem "soprar" filé.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

piss&dream

Conversando com Roseta ela confessa:

"Às vezes eu acordo ainda lembrando do sonho que tive durante a noite. Daí vou ao banheiro fazer xixi e depois disso eu simplesmente esqueço o que foi que eu sonhei.
Menina, acho que eu mijo meus sonhos e não urina."

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

TRAVA-LÍNGUA


Uma aranha arranhava o jarro
Que também arranhava a aranha
Eu era um dos três tigres tristes
Excitados com aquela façanha

Eu adoro um trava-língua
Duas línguas se travando
Num ninho de mafagafos
Se amafagafizando...

Cora Rufino (Agosto 2006)
Prestes a virar musiquinha...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Meu amigo oceânico


Conversando com o Arthur ele revela:


-- Sabe... eu queria morar naquela parte escura do mar. Lá no fundo. Bem fundo! Aquela parte onde só tem peixe cego.
-- Os reinos abissais ou algo parecido?
-- É! Eu queria ter uma casa toda de vidro, toda iluminada. Em tudo preto e lá no fundo um ponto luminoso. Seria a minha casa! Já pensou? Eu veria os peixes passarem do lado de fora!
-- Ah, tá. É como se você tivesse um grande aquário do lado de fora. Porém os peixes não iriam te ver. São cegos.
-- Não. Eu é quem estaria no aquário! Pensa bem, quando um peixe está num aquário é porque ele está isolado em um ambiente que não é o dele. Então eu também estaria num aquário se morasse dentro de um vidro no fundo do mar e... Epa!
-- Que foi?
-- E se uma baleia batesse na minha casa?
-- E tem baleias nas zonas abissais?
-- Sei lá! Mas se ela batesse na minha casa? Ia quebrar! A água ia entrar e eu ia morrer!
-- Verdade! E agora?
-- Hum... eu ia morar numa casa de vidro, iluminada, no fundo do mar, com cerca elétrica.