domingo, 4 de março de 2018

A Fada

Do quarto eu olho o céu
Algo pisca no parapeito
Penso que deve ser ela
Que sempre vem quando me deito

Vem voando rapidinho
E pousa bem no meu nariz
Na ponta fica dançando
Mas não sei o que ela diz

De repente voa pra longe
Parece que vai p’ra janela
Talvez cansada resolva
Pousar na flor amarela

É num vaso de girassóis
Onde dorme a minha fada
Até minha gatinha Bichana
A observa admirada

Bichana sobe à janela
E vê de perto o pisca-pisca
Abre a boca e come a fada
Pois quem não arrisca não petisca


Cora Rufino


(outubro de 2005)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

O mínimo, talvez


Depois de dias de sobriedade e dor... ou seja, após arrancar o siso inferior esquerdo, sofrer ainda, mesmo passada uma semana com as dores, não podendo beber ou fumar... eu, sóbria de drogas e inebriada vendo estrelhinhas... arrumo a casa na madrugada.


Descobri que uma tendência que eu já tinha tem nome: minimalismo.
Não sou organizada, caso tenha parecido que eu tenha dito isso. Eu, de vez em quando na vida, descarto. Primeiro o que eu achei que iria usar e não usei. Depois, o que eu “não amo”.
Esse conceito de descartar o que não se ama vi num livro de Marie Kondo e suas dicas de organização da casa. Uma viagem à japonesa. Quem pode amar coisas? E por que não?
É possível descartar pessoas?
Assim falando parece insensível, mas até que não.
“Destralhe” é o termo que aprendi com uma youtuber. É o ato ou o efeito de desentulhar a vida separando as tralhas que aprendemos a nos apegar. As tralhas que aprendemos a amar desnecessariamente. Austrálias.
Só quis rimar.
No minimalismo nos reeducamos para viver com o essencial. É uma forma de ver o mundo. Uma maneira de viver a vida. Parece bobo, mas é amar o que se merece.
Já reparou como passamos a vida buscando ter e ter e ter mais coisas? E sempre nos falta. Sempre.
No minimalismo, não é que nunca nos falte, mas...não se tratar de posses, se trata de amar.

Passei muitos anos sem proferir da minha boca que amasse alguém. Me ensinaram (a TV) que amar era para poucos ou, que amar era sagrado.
Não sou sacra. E em meus estudos em línguas latinas percebi que “amar” era dito como “eu te quero bem” ou, em espanhol “te quiero”.
Amar nada mais é que isso. Coisa simples. Nada demais. Passei a dizer que amo quando vi que era modesto.
E belo, que fique claro, por isso o profiro.

Aí vem as coisas e o minimalismo e o amor. Marie Kondo diz “isso me traz alegria?” ao olhar para um objeto. Se não te traz alguma felicidade desfaça-se dele.

Meu marido ridicularizou:
- Parece coisa tilelê idiota.

E de repente todo o conceito do essencial, do amar o que se tem, da contracultura ao mundo do capitalismo desenfreado e da organização da casa e da economia e da limpeza e da energia... tudo
Estilhaçou-se.
Lacrimejei.
Eu sou uma dona de casa fútil a seu ver. Que lê revista Hermes™ e pede aparatos plásticos para decoração.
Nada contra (só o minimalismo), mas não sou assim.
Após a sua partida ao bar, para fazer-se presente ao homem que ama, me deixou.
Reflexiva na rede questionei pensando nele:
- Isso me traz alegria?


sábado, 17 de fevereiro de 2018

haikú

Revirando posts antigos do Twitter me deparei com esse haicai (ou haikú, como os hispanohablantes chamam às vezes). Pela data, eu ainda estava no Chile. Achei curioso o tweet em questão porque não fazia ideia de por que eu tinha escrito isso, ou para quê, ou o que porra exatamente dizia.
Sereno? Orvalho? Boca?
Boca de quem?

AAaah....

Aí eu lembrei.
Lembrei como é "orvalho" em espanhol.

Era o nome dela.





Sereno.
A umidade da tua boca
é o orvalho
matinal



Cora.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

isabeau


Fortaleza nem percebe
A raiz abominada
A raiz abocanhada
Pelas dunas cearenses

Fortaleza é aloucada
Trinta e duas e a estreia
Trinta e duas e a plateia
Não respira de suspense

Fortaleza sem lavrado
“O barraco ‘disabô’”
 E meu verso acabou
E levou as referências

Fortaleza, por favor
Não engula essa pequena
Que é gigante, vale a pena
Tenha a Santa Paciência


Cora Rufino

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Nighwalker - reformatado



Minha boca pede um cigarro Sou uma nova viciada
Durante a maré de quebranto Pedia goles de água
salgada Eram lágrimas apagando brasas Eram
tragos no balcão da casa E de noite
Condessa Drácula pensando
Agora sem mácula
No cinzeiro
que esta
 va o
 céu
Na
ca
la
di
nha
da
noi
te
fumaça
com gosto de mel





Cora Rufino


sábado, 14 de janeiro de 2017

sarauba

eita, diacho
voltei
me disseram que havia um sarauba

ja trouxe o vinho e a água
pro caso da sede atacar

marrapaz
achei
que o arfar chegou ligeiro

quem ataca quem primeiro?
temos que organizar


Era tom de brincadeira
Semi tom de coisa séria
eu queria estar de férias
só pra ver eu e você

Mas sarauba é assim mesmo
se mexe com quem está quieta
remexe pra ser poeta
e depois paga pra ver.















segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O semestre de durou anos - parte 1

Mesmo tendo começado o ano de 2017 ainda não acabou o semestre de 2016.2.
Foi um dos semestres mais longos dos últimos tempos.
Estou falando do volume de informações que tive que lidar. Tudo em um semestre mas que, graciosamente, estou terminando ele mais serena do que quando o comecei. Eu quis usar aqui a palavra “graciosamente” porque “gracioso” em espanhol é “engraçado” e em português é “terno”. Não o terno de vestir, mas o de ternura. E engraçado que “engrasado” em espanhol significa gorduroso. Isso é o que chamamos de falsos cognatos. Cabe explicar também que se você veste um terno deve tomar bastante cuidado para que não caia gordura nele. Pois gordura é “grasa” e graça é “ternura”.

(nesse momento imaginei minha orientadora destacando a palavra “pois” de vermelho e dizendo que “pois” não faz sentido naquela sentença pois “pois” é uma conjunção conclusiva e deveria estar explicando a oração anterior. Ela é chilena a minha orientadora e diz que eu tenho que melhorar meu português. Eu acho terno. Porém ela tá correta)

(Imaginei ela destacando os dois “pois” que coloquei repetidos ali em cima e dizendo para eu “revisar a grafia de ‘pois’”)

(Nota: Revisar a grafia depois)

Mas como eu dizia, já no começo de 2016.2, o semestre que durou anos, eu iniciei com um tal dum Desafio dos 30 dias de Saúde. Foi legal. Um mês sem beber, comer fritura e fazendo pelo menos meia hora de exercícios físicos todos os dias. Ganhava um prêmio quem emagrecesse. Ganhei uma camiseta por ter emagrecido 3kg. Que bom, mas meu objetivo geral não era esse (esse era o objetivo específico), eu estava num processo de mudanças: mudanças de rotinas, de filosofias, de crenças. Como no início do ano de 2016 a psicóloga (Ah, sim, tem um ano que faço terapia, no próximo post explico melhor) falou que eu tinha uma depressão moderada eu comecei a rir. Não, na verdade eu sorri. Falei “sério?” e ela disse “Sim” e eu disse “sério?” pela segunda vez e parece que era sério mesmo. Nesse dia ela perguntou se eu tava me achando feia ou algo assim, porém justo naquele dia eu tinha colocado um vestido decotado, tava me achando bonita e respondi “não”. Saí do consultório rindo e assim rindo eu caminhei aqueles 20 minutos até minha casa. Quando chegou a noite eu ainda tava rindo e o Murilo perguntou o porquê de eu estar rindo eu respondi “eu tenho depressão”. Expliquei que não sabia porque estava rindo e ele disse “deve ser porque finalmente agora você tem um nome para isso que te intrigava”.

Bem, mas isso aconteceu no primeiro semestre, estou aqui para falar do segundo. Ocorre que no segundo semestre de 2016, aquele semestre que durou anos, emagreci 3kg em um mês e descobri que para cumprir certas coisas tem que sofrer. Sofrer porém fazer mesmo assim. O desafio dos 30 dias nada mais era que uma preparação para a escrita do meu artigo de TCC.
Peço que jamais o leiam, antes ou depois da minha morte, pois escrevi o artigo como quem escreve num blog. Tentei ser formal, acadêmica, pesquisadora, cientista, teórica... mas foi o semestre que mais tuitei, por exemplo e me expus na internet.
Naiara, a psicóloga, disse que eu anotasse num papel as coisas que sentia. Talvez escrever sobre meus feelings fosse ajudar em algo. Em frases curtas, ela disse. Daí pensei “vou tuitar, então”. Não sei se deu certo ou errado. Mas teve algo de terapêutico em soltar pílulas de impressões assim, na nuvem, pra que se misturassem naquela cachoeira de frases curtas que é a timeline do Twitter.
Foi no Twitter que nesse semestre saí do armário enquanto bissexual, não-monogâmica e ridícula. E pra minha surpresa ninguém ligou para o fato de ser bi (até antes de 2016.2 eu não havia saído do armário publicamente), um par de amigos curtiu o fato de eu me assumir ridícula (uma disse até que já sabia) e parece que ser não-monogâmica foi o que realmente causou um leve frisson, com direito a meu namorado recebendo mensagem da minha cunhada perguntando que história era essa.
Enfim, assunções de 2016.2. Às vezes é libertador se expor. Porque... é o que sou. Ridícula, não-monogâmica, bissexual e com depressão moderada.
Traçar um olhar sobre isso tudo e “curtir” isso que sou publicamente é algo que estou experimentando.
Ah, e comprei um Kindle. Já li 40% de “Cem anos de solidão”. Era parte de uma tarefa terapêutica onde eu deveria espairecer e abstrair do meu TCC e suspender a realidade sem drogas e tal.
Até a próxima.