quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Lagartinha

Lagartinha,

Hoje acordei meio pensativa sobre a conversa que tivemos e os jegues e tal. E me deu vontade escrever texto cheio de viadági, onde faço um balanço (não, muito libriano) digo, um panorama desse encontro nosso esse ano.
Sabe, esse ano foi um ano bem atípico pra mim. Saída de uma turnê gigante e desgastante em 2017, um espetáculo polêmico e uma cirurgia nos olhos no final de tudo, eu havia decidido que em 2018 iria investir no que me fizesse feliz. Para isso eu tive dinheiro, apoio e coragem.
Foi empoderador o sabor da obstinação, da independência, não só financeira, para concretizar sonhos antigos. O pior: foi maravilhoso. Me deixando cegamente apaixonada pelas coisas que acredito e por mim, sem limites, realizando todos os sonhos sem impedimentos. Eu podia tudo.
E você acompanhou muita coisa: meu primeiro quadrinho lançado, minhas oficinas de atuação para resgatar a atriz que tava relegada, desvendar mais caminhos da minha profissão, para ganhar mais potência e coletivos e rolês diversos para conhecer pessoas e me atualizar dos rostos.
Foi um ano bem louco. Bem corajoso, falo pelo meu sentimento.
Foi o ano que nesse ímpeto, resolvi me separar do Murilo.
Algo não tava muito bem e eu não conseguia fazer funcionar. Eu tava obstinada, sem freios e não podia parar por nada. Não poderia perder esse embalo. O casamento me atrapalhava... e me separei, mesmo amando ainda...
E não imaginei quão difícil e imprudente foi a decisão em plena época de eleições. Uma baixa de ânimo, uma desesperança, e um receio imenso de terminar só e desamparada ao concluir que tudo isso que eu relatei aí em cima, pudesse não ter valido de nada.
No final de 2018, fraquejo das pernas e duvido das minhas decisões. Temo começar o próximo ano sem nada do que investi esse ano e sem nada do que cultivei anos atrás (como o Pigmalião e a companhia do Murilo). Então fico reclusa e calada, metralhando piadinhas idiotas, e meio distante, eternamente "recalculando a rota". O que será do meu ano que vem? O tenho que resgatar, manter ou descartar?
É um embaraço bem estranho esse em que me meti e acabei envolvendo mais gente. Foi culpa daquela obstinação que falei mais atrás.
Não sei se é impressão minha (ou sou eu já entrando em nóia), mas sinto que vc já está de saco cheio dessa história... e tem razão. "Onde foi que eu amarrei meu jegue" seria algo que eu me perguntaria e perguntaria da outra pessoa também: "e aí, fia?".
Deve ser meu Sol em libra que me faz querer que tudo saia bem para todos e não querendo ver que nem sempre dá. Então, eu lamento ter sido algo ruim para você em alguns momentos desse ano. Como vc diz: "com as coisas aqui, na garganta". E eu mesma, manteiguinha que sou não consigo verbalizar nada sem parecer ou me sentir tosca e...tosca, sendo piegas, baranga, insegura, chorona, clichê, indecisa e canastrona... não me sinto uma boa companhia e nem alguém que traz coisas boas (não falo dos chocolates).

Hoje Murilo apareceu em casa meio dia, veio buscar algo que tinha esquecido. Ele parecia abatido e estressado pelo trabalho e sei, que pela conversa que tivemos ontem também não estava a pessoa mais feliz.
E quando eu paro pra pensar que tenho 32 anos e metade da minha vida eu passei com ele eu sinto algo estranho, muita pena. Por toda essa história longa... por tudo o que já passamos de bom e ruim.
e me angustia. Mas sei que voltar pra ele não é algo que eu pense nesse momento. Pois estou noutra jornada, a minha. E vê-lo sendo ferido nessa minha busca por mim mesma me fere também.
E essa dor se reflete nas outras coisas que faço, e nas angústias que sinto.
Eu preciso lembrar quem são meus amigos, reencontrá-los. Preciso tomar mais banho e cuidar de mim. Preciso aprender a dançar em 2019, pois me parece ser mais um ponto de expansão da minha expressividade... preciso seguir a jornada.
E, claro, dar seguimento ao que comecei em 2018: os quadrinho e o cinema. Mas dessa vez sem o dinheiro que tinha.

Dentro de toda essa loucura está você, Lagartinha.
De onde você brotou? Que veio como um gnomo transformando tudo, me fazendo esquecer quem sou... ou melhor, fez eu conhecer um outro lado meu e transcender esse mundo maluco e ingrato. Você me mostrou o amor, mesmo sem usar essa palavra. Me mostrou a revolução. Fez eu cair em mim, me destravar para certas coisas, me abrir para outras... eu, tão calada e pouco carinhosa na vida. Tão cabreira e desconfiada fazendo meus planos em silêncio, me abri para você. E confiei. E foi tão bom.

Foi tão bom também descobrir o seu mundo. Mesmo com essa mania minha de andentrar a sua casa e burlar as regras (sinto muito se fui longe demais). Mas era meu afã em te desvendar um pouco mais e o seu universo. Essa "personagem" Debris em toda a sua complexidade. Você é uma pessoa incrível e inspiradora. Você é uma pessoa que eu amo e só quero o bem.

Esse textão é um desabafo e uma declaração de amor. E uma garantia de que você pode me falar o que quiser.



quinta-feira, 5 de julho de 2018

Plexo


Eu toquei em seu Plexo Solar
Sem saber onde ele fica
Mas essa coisa de Plexo Solar
Não me deu nenhuma dica...

Quantas milhas vou ter que percorrer
Para encontrar o seu interior
Esse tesouro é complexo de achar
Não sei dizer se é amor

Mas eu toquei o seu plexo solar
Sem saber onde ele fica
E essa coisa de plexo solar
Não sei o que significa



Cora Rufino

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Acróstico

E de repente, procurando nos arquivos de computador algum poema inédito, me deparo com um chamado "acróstico". Abri curiosa e me deparei com isso:



Entre. Eu abro a porta.
Li que os vampiros são assim:
Invitados adentram minha casa e
Meu pescoço com seu marfim.
Aliás, só com metáforas
Consigo poder brincar.
Um cálice de vinho tinto, uma
Xícara de chá?
Infusões ou puro álcool, estou pra lá de Bagdá!

sábado, 26 de maio de 2018

made in china


Pessoas entram o tempo inteiro
Tenho que ser certeiro

A cadeira que me deram é vagabunda
Já quase não sinto minha...

Meu olhar é um estilingue
Sou vigia numa loja xing-ling

Vejo a dona a xingar e não entendo
Só faço meu trabalho, recomendo

Não sabem do meu ofício
É difícil

Vigio o povo suspeito
Imponho respeito

Ah que tédio meu deus, mas é o emprego
O que a crise não faz com meu sossego

Deixa eu voltar à lida antes que esqueça
Pois passo o dia rimando na minha cabeça


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versinho feito pro zine sem título feito para o FIQ.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

matando

Estou aqui matando aula. Uma aula paga, inclusive. Cara, além de tudo.

Porque eu simplesmente precisava parar para pensar.

Comecei a decorar um texto. Sim, eu sei que "decorar" é uma palavra antiprodutiva quando falamos de teatro e o trabalho de ator. Mas nessa loucura da vida, eu me vi como essa tirinha da Akelatriz:


Onde eu tava no Uber abrindo o arquivo do texto a ser "decorado"- coisa que deveria ter feito semana passada - e me colocando aí duas horinhas disponíveis para memorizar as coisas.

Ao chegar em casa, com a respiração aos bafos e a cabeça a mil após uma reunião de produção teatral, percebi claramente que não teria condições de dar carinho e atenção às belas palavras do Samuel, o dramaturgo.

Era um paragrafinho, super simples se eu pegasse as duas horinhas e ficasse igual papagaio repetindo até automatizar. Mas a gente sabe que isso não se faz... precisava de alma.

Minha alma ainda não tinha chegado com essa correria da vida e eu temia que não chegasse a tempo da aula ou que, quando chegasse, fosse tarde demais e eu teria de zarpar em total desconcentração.

Uma coisa que me propus esse semestre foi ser franca comigo mesma. Em cascar fora, mesmo amando, de algo que não fosse me trazer alegria (porra, Marie Kondo). Não tão xiita dessa forma. E não tão egoísta, pois trabalhando em grupo eu não posso simplesmente cascar fora... então busco amar as pessoas com quem trabalho ou trabalhar com quem amo.
Citei aqui num post anterior que amar é fácil, não falo de forma romântica e sim pragmática: amo sim.

Enfim, o adendo sobre que nunca me foi questionado faço questão de explicitar. Porque sim.

Samuel merece atenção.
As atividades, benzadeus, serão amadas.
me sinto bem
matando aula


segunda-feira, 7 de maio de 2018

A INVISIBILIDADE DA MULHER ATEIA

Vim aqui fazer textão sobre
A INVISIBILIDADE DA MULHER ATEIA
Era uma vez uma mulher atéia. Quando ela nasceu os astros se alinharam e disseram: "mina chata, mexe com ela não". Se desalinharam e cada um foi arrumar o que fazer.
Um dia deus disse pra ela: "Filha, vc precisa ter um signo que te guie e te ilumine."
Ela comprou uma bússola e um abajur na Imaginarium.
Odin ficou furioso! Enviou a Morte, em forma de gótica, para seduzi-la e enfeitiçá-la. E numa boate qualquer, ao som de Michel Teló, a Morte cobriu a mulher com um manto bem na hora do "assim vc me mata".
Antes de partir a Morte falou: "não vou te matar, vou deixar vc viver, porém, esse manto te deixará invisível. Já que vc rejeita a existência de deuses, a humanidade rejeitará a sua existência também. Só mais uma coisa: cuidado pra não deixar nenhum molho cair no manto porque é da minha vó. Relíquia de família, sabe?"
A mulher vagou pelo mundo coberta por aquela Relíquia da Morte. Quando chegou no fim de uma ruazinha estranha, meio que um beco diagonal, a mulher ateia avistou uma sauna.
Nunca deixavam mulheres entrarem naquele tipo de sauna.
Ela entrou lá invisível e ninguém sabe, até hoje, se ela saiu de lá.
Só se sabe que ela é libriana e isso explica muita coisa.
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E no próximo capítulo vou problematizar O TÉDIO DA MULHER ZUEIRA.
(texto publicado no facebook em maio de 2016, durante um vácuo numa turnê)

terça-feira, 1 de maio de 2018

Me despedi

Me despedi
Das dúvidas que nunca me tiraste
Da ausência do olhar e da palavra
Da incerteza nos teus atos e presentes
Me despedi

Dói pensar que parto agora
Como sempre ando sendo, a partente
E rascunho calmamente neste bloco
A decisão de não ser indiferente

Me despeço, então assim, das contrassenhas
Nem o hacker do Silício codifica
Se és feliz, ao meu ver, na traquinagem
Me desculpes, entendi que era dica
Eu no alto de minha vocação gaiata
Não logrei fazer parte desse jogo tiririca

Me despedi
Então
Com um pesar
Porque não sabes ou finges não saber
Que palavras e os atos têm um peso
Bacharéis em teatro podem ver
Mas mesmo que não haja um diploma
A análise dos fatos
É um drama de morrer

Me despedi, sabendo ser mentira
Que não levo na bagagem nada mais
Mas despeço o que um dia eu pedi
E te devolvo o que só me tirou paz

Me despedi.
Com dor
Me despedi